“SEMPRE FIZEMOS ASSIM”: QUANDO O RISCO PASSA A FAZER PARTE DA ROTINA

No dia a dia das empresas, existem comportamentos e situações que, apesar de não serem os mais seguros, acabam por se tornar parte da rotina.

“Sempre fizemos assim.”
“Nunca aconteceu nada.”
“É só desta vez.”

São expressões comuns, mas que devem ser encaradas como sinais de alerta.

Quando uma situação de risco se repete sem provocar um acidente, é fácil deixar de a considerar perigosa. Uma proteção de uma máquina que não é utilizada corretamente, uma passagem frequentemente obstruída, uma ferramenta inadequada ou uma tarefa realizada sem as medidas de segurança previstas podem, com o tempo, passar a ser vistas como situações normais.

O problema é que o facto de nunca ter acontecido um acidente não significa que uma situação seja segura.

Quando o risco se torna rotina

Este fenómeno é muitas vezes associado à chamada normalização do desvio: uma prática inicialmente considerada inadequada começa, através da repetição e da ausência de consequências, a ser aceite como normal.

A experiência profissional pode contribuir para este fenómeno. Um trabalhador que executa determinada tarefa há vários anos pode sentir que conhece perfeitamente os riscos e que consegue controlar a situação.

Frases como “eu faço isto todos os dias” ou “sei o que estou a fazer” podem transmitir uma falsa sensação de segurança.

A experiência é importante, mas não elimina os riscos.

A responsabilidade também é da empresa

A normalização de comportamentos de risco não depende apenas dos trabalhadores. A organização tem um papel fundamental na prevenção.

Quando uma situação insegura é conhecida e permanece sem correção, pode transmitir-se a ideia de que aquele comportamento é aceitável.

Por exemplo, se uma proteção de uma máquina é retirada e ninguém intervém, é provável que a situação continue. Se uma passagem permanece obstruída durante semanas, os trabalhadores acabam por se habituar ao obstáculo.

Da mesma forma, quando os prazos de produção são constantemente colocados acima dos procedimentos de segurança, os trabalhadores podem começar a considerar as regras de prevenção como secundárias.

Assim, uma exceção pode transformar-se num hábito.

É importante questionar o que já consideramos normal

Uma boa cultura de segurança passa por observar regularmente a forma como o trabalho é realmente realizado e identificar situações que se afastam dos procedimentos definidos.

A empresa deve questionar:

  • Existem tarefas realizadas de forma diferente daquela prevista?

  • Existem equipamentos utilizados sem as proteções adequadas?

  • Existem ferramentas improvisadas ou inadequadas?

  • Existem zonas de circulação frequentemente obstruídas?

  • Existem procedimentos que deixaram de ser cumpridos porque “sempre foi assim”?

  • Os trabalhadores sentem que podem comunicar situações de risco?

Estas questões podem ajudar a identificar riscos antes que estes resultem num acidente.

Comunicar para prevenir

Os trabalhadores devem sentir-se à vontade para comunicar condições inseguras, falhas nos equipamentos ou dificuldades em cumprir determinados procedimentos.

Alertar para um risco não é criar um problema — é contribuir para a sua prevenção.

A experiência de quem realiza diariamente as tarefas é fundamental para identificar situações que podem não ser evidentes numa análise apenas documental.

Por isso, a comunicação entre trabalhadores, responsáveis e técnicos de Segurança e Saúde no Trabalho deve ser incentivada.

Uma verdadeira cultura de segurança constrói-se diariamente, através da capacidade de reconhecer que uma prática habitual não é necessariamente uma prática segura.

O facto de nunca ter acontecido nada não significa que esteja tudo bem. Significa que ainda estamos a tempo de prevenir.

 

Mariana Ribeiro
Engª de Segurança

 

Nota de Conformidade: Os recursos visuais do presente artigo foram produzidos mediante utilização de modelos de Inteligência Artificial Generativa, não correspondendo a registos fotográficos de instalações ou simulações reais.
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